CARPE DIEN

terça-feira, 7 de junho de 2011

1ªS SÉRIES - VIDEO ESPECIAL SOBRE MIGRAÇÕES

1ªS SÉRIES - MIGRAÇÕES E PROCESSO DE URBANIZAÇÃO

1ªS SÉRIES - COMÉRCIO MUNDIAL


1ª SÉRIES
O comércio é por definição uma forma de relação humana que implica colocar em contato grupos sociais diferentes. Na origem da história humana para um grupo A interessava obter de outros grupos aquilo que não se con-seguia produzir, aquilo que somente outros grupos possuíam. Esse gênero de relação exigia estender relações sobre espaços mais amplos, obrigava a abrir caminhos, rotas e construir portos, estimulava a criação de novos meios de transporte e impunha a criação de estruturas para os comerciantes. Como se vê, o comércio é uma atividade humana produtora de novos espaços humanos e uma atividade que ensinou o ser humano a lidar com a distância geográfica.

No mundo contemporâneo tudo isso intensificou extraordinariamente. Com os novos meios disponíveis, as atividades comerciais aumentaram o poder de uma das forças propulsoras da "fabricação" de novos espaços e do aperfeiçoamento dos meios de superação da distância entre as realidades geográficas. Vamos pensar nas marcas de produtos comerciais que frequentam nosso dia-a-dia. Qual a origem nacional da marca? Numa série de produtos (roupas, calçados e eletrônicos, por exemplo) onde é a localidade da fabricação? São duas coisas diferentes: um produto pode ter uma marca de origem americana e ser produzido na China. Uma marca pode ser francesa e seu produto pode ser, ao menos em parte, produzido no Brasil.
Isso revela a complexidade das relações atuais, num mundo globalizado, embora uma relação comercial, ao pé da letra, resuma-se à saída do local de produção (ou ponto de venda) até o ponto do consumo.
Os fluxos de produtos que chegam até nós vêm do mundo, de um sistema produtivo e comercial que se organiza na escala mundial, não somente dos nossos vizinhos, do mundo ocidental ou do extremo oriente.
O comércio como acelerador dos fluxos; aceleração dos fluxos intensificando o comércio.
O mundo contemporâneo é complexo. Isso não quer dizer complicado, como é comum se pensar. Complexo significa que cada realidade isolada é sempre produto do conjunto da realidade total, ou das diversas realidades em relação. Durante os últimos 50 anos as exportações mundiais aumentaram em volume, nove vezes mais rápido que a produção mundial. Produz-se mais, mas se comercializa entre países muito mais ainda. Quer dizer que boa parte da produção antigamente circulava mais no interior dos pró¬prios países onde eram produzidas; hoje a produção circula muito mais numa escala geográfica mais ampla: circula o mundo.
O comércio não cresceu por si só, porque tem mais gente com¬prando bens. O comércio cresceu porque uma série de eventos e transformações cruzadas nes¬se nosso mundo propiciaram essa condição (e que já estudamos): a aceleração dos fluxos, as redes técnicas, a força das transnacionais e suas redes geográficas, a geopolítica, a ordem mundial e a ação das potências, que permitiram nesses últimos 50 anos que os mercados nacionais nada mais fossem que "seções" de um único e imenso mercado mundial. Outros exemplos de eventos que propiciaram o crescimento do comércio: desenvolvimentos tecnológicos, a multiplicação dos meios de compra e informação sobre os produtos, o afrouxamento das fronteiras dos Estados nacionais territoriais etc. A imagem dos fluxos comerciais no mundo contemporâneo é forte. Nunca o planeta pareceu tão pequeno, tal a dimensão dos fluxos e as distâncias que eles percorrem. Longos trajetos, outrora feitos apenas por aventureiros, atualmente são as principais rotas comerciais do mundo. Rotas oceânicas percorridas por navios que ancoram em portos, abarrotados e congestionados de mercadorias, e rotas aéreas que chegam em pontos antes inalcançáveis resultam da busca desenfreada por novos mercados, por novos consumidores.
O comércio, obviamente, não ocorre somente na escala mundial, isto é, na relação entre continentes e países diferentes. Os fluxos ocorrem internamente dentro de uma região, numa escala inferior: produção no país/continente e consumo no país/continente.O grande desafio da cartografia contemporânea não é localizar com precisão fenômenos geográficos, pois isso já está pronto e atualizado pelas imagens de satélite; o grande desafio está em conseguir expressar visualmente as relações espaciais que se desenvolvem num mundo cada vez mais complexo, ou seja, a utilização da linguagem. Para se produzir um mapa, antes de tudo, é preciso ter acesso às informações, à base de dados que será objeto da representação. Na cartografia temática contemporânea, há uma tendência em se preferir as projeções do tipo da de Buckminster Fuller ou a de Bertin para a representação de fluxos comerciais (lembre-se do mapa do tema 5, dos fluxos migratórios). Elas aproximam os blocos continentais, eliminam as imensas distâncias oceânicas e dão uma idéia mais expressiva e real do que são os fluxos no mundo contemporâneo. Projeções como a de Peters ou a de Mercator têm uma proeminência muito grande dos oceanos e expressam visualmente distâncias longuíssimas entre o extremo da Ásia e as Américas, por exemplo. A seta é compreendida, universalmente, como símbolo gráfico adequado para representara direção dos fluxos, pois permite expressar quantidade com a manipulação de seu tamanho (largura). Setas largas estarão representando fluxos de maior quantidade; mais estreitas, o contrário. Definir símbolos de comunicação não dá margem a diferentes interpretações. O que se vê tem sempre que ter sempre um único significado. Os blocos continentais no fundo do mapa devem ter uma única cor para todos. Uma cor leve e neutra para não ofuscar as setas. Define-se uma única cor para as setas e elas não podem se sobrepor umas às outras. Se fossemos montar um mapa com o tema “Comércio mundial de mercadorias”, constariam dados do comércio que poderiam ser representados cartograficamente em quadrados ou círculos (quanto maior, significa maior o volume negociado) ou por setas, e os números poderiamos colocar em uma legenda (resultando em uma representação quantitativa, pois apresenta números).
Hoje, os fluxos mais importantes no comércio mundial de mercadorias estão entre a Ásia e a América do Norte, entre a Ásia e a Europa Ocidental e entre a América do Norte e a Europa Ocidental. O fluxo da Ásia para a América do Norte é maior, mesmo com a imensa distância oceânica (que foi superada por conta da globalização, que encurtou as distâncias, realidade no mundo contemporâneo). O fluxo gira em torno da América do Norte, Europa e Ásia, mas os maiores fluxos ocorrem entre os países desenvolvidos para os subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias). Já os menores fluxos estão entre os próprios países subdesenvolvidos (tanto saída como entrada de mercadorias). A Ásia aumentou significamente suas exportações, principalmente para os EUA e Europa e se consolidou como um grande pólo exportador. Muitas transnacionais, que normalmente tem sede nos EUA e Europa, começaram a produzir nos países deste continente (China, por exemplo), para baratear a produção. E a mão-de-obra é farta e barata, aumentando a produção em grande escala e negociação de seus produtos por preços mais baixos. Os EUA são o maior comprador nesse tipo de relação e isso é uma participação fundamental, pois esse país é um grande mercado. Seu papel, como exportador, é um pouco menor, o que contraria uma visão de país forte (aquele que mais vende e que menos compra). Mas essa visão não corresponde ao modo como a economia global se organiza atualmente. Nesse modelo, importação e exportação não têm o mesmo peso de épocas anteriores. Por isso, os EUA não perderam sua importância no comércio internacional. O peso do comércio em escala regional (no mesmo continente, país ou região) ainda é grande, mas o comércio entre os continentes, ou seja, escala global (inter-região) está crescendo cada vez mais.

A intensificação do comércio internacional e a liberalização comercial ocorrida nos últimos anos têm aumentado a importância relativa dos procedimentos de fronteira como determinante dos custos de comercialização associados ao comércio internacional. Uma parcela desses custos está associada a atrasos portuários, a ausência de transparência na aplicação de regras, a burocracia e a procedimentos aduaneiros desatualizados. Nesse contexto, a facilitação de comércio começou a receber destaque no cenário político internacional. Entendida como medidas que reduzem os custos de comercialização internacional, a facilitação de comércio tornou-se tópico de discussão na OMC a partir da conferência Ministerial de Cingapura de 1996. Estudos relacionados à facilitação de comércio, principalmente estudos que abrangem o Brasil e seus parceiros comerciais ainda são raros. O presente estudo tencionou contribuir nessa direção avaliando os efeitos da facilitação de comércio, definida em termos da transparência da política comercial, sobre o padrão de comércio bilateral de um conjunto de 43 países que inclui o Brasil e alguns de seus principais parceiros comerciais. Para isso, são descritas primeiramente as relações entre a facilitação de comércio, transparência da política comercial e os fluxos comerciais. A idéia central é que a reforma da política comercial que promova a transparência, através de maior previsibilidade e simplificação, pode contribuir para a redução dos custos de comercialização associados ao comércio internacional e ampliar os fluxos de comércio entre os países. A partir de indicadores de facilitação de comércio relacionados à transparência da política comercial são construídos, para cada país da amostra, três índices de transparência utilizando a técnica estatística multivariada da análise fatorial: dois índices de transparência nas importações e um índice de transparência nas exportações. A relação desses índices com o padrão de comércio bilateral entre os países é estimada utilizando um modelo gravitacional construído com dados de comércio bilateral dos 43 países desagregados em Capítulos do Sistema Harmonizado. O modelo gravitacional é estimado através do modelo de efeitos fixos e os resultados indicam que os índices de transparência nas importações e o índice de transparência nas exportações estão positivamente associados com o comércio bilateral e são estatisticamente significativos. Dessa maneira, a introdução de reformas nas áreas de facilitação de comércio, que levariam a um incremento relativo dos índices de transparência, pode resultar na ampliação do comércio entre os países.

A reunião de Postdam, na Alemanha, começou dia 21 e devia prolongar-se até dia 24, com o objectivo de criar condições para uma possível base negocial entre o Brasil, Índia, União Europeia (UE) e Estados Unidos, denominado por G4, com vista a dar um impulso à Ronda de Doha para a liberalização do comércio mundial, que se encontra suspensa desde 24 de Julho de 2006.
As diferenças insanáveis continuam a ser as subvenções agropecuárias que os Estados Unidos e a UE querem continuar a manter para os seus produtos, enquanto os países de economias emergentes, como o Brasil e a Índia, e os países em desenvolvimento, exigem o cumprimento das promessas dos países industrializados de permitir uma abertura dos mercados a estes produtos Os países industrializados pedem, em contrapartida uma liberalização dos mercados para os seus produtos industriais e serviços.
O crescimento do comércio mundial pode cair para 4,5% em 2008 - contra os 5,5% verificados em 2007 - porque a desaceleração econômica nos países desenvolvidos só será compensada em parte pelo forte crescimento nas economias emergentes.
O comércio mundial cresceu 8,5% em 2006, mas caiu a 5,5% em 2007.
Segundo o relatório, a turbulência no mercado financeiro, que reduziu consideravelmente as perspectivas de crescimento para muitos dos países desenvolvidos, prejudicou as perspectivas para o comércio mundial neste ano. Para esse grupo de países, a expectativa é de um crescimento de 1,1%.
Já para os países em desenvolvimento, a OMC projeta um crescimento superior a 5%. "Isso pode resultar em um crescimento mundial de 2,6% e em uma expansão do comércio mundial em cerca de 4,5% em termos reais, descontada a inflação", afirma o órgão no documento.
Cresce a incerteza sobre durante quanto tempo os países em desenvolvimento poderão manter um ritmo forte de crescimento econômico frente a uma demanda em queda nos maiores mercados desenvolvidos e às crescentes pressões inflacionárias", aponta o relatório.
Se, por outro lado, os países desenvolvidos sofrerem uma desaceleração econômica mais acentuada, o crescimento do comércio cairia muito mais.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

2ªS SÉRIES - Os Circuitos da Produção


2ª séries

Os Circuitos da Produção
Produção do espaço, sistemas técnicos e divisão territorial do trabalho (Resumo)
Como a produção do espaço resulta do trabalho social que se funda no sistema técnico imperante em cada fase da história., o conjunto das tarefas executadas pela sociedade reflete a correlação entre espaço produzido e as técnicas disponíveis em determinada época, também chamada de ciclo. O Brasil nasceu na região do nordeste atual, do litoral (com a cana) ao interior ou o amplo sertão nordestino, com a pecuária. Neste, sucederam do séc. XVII ao XXI vários sistemas técnicos caracterizantes da pecuária, cotonicultura, extrativismo, agroindústria e turismo. Cada um com suas especificidades de trabalho. Tomamos, como referência territorial, uma parte de uma das unidades político-adiministrativas, o estado do Ceará no Nordeste Oriental, cujo trabalho sempre esteve ligado, direta ou indiretamente, à ordem internacional, quer da metrópole (Portugal) quer de outros mercados1.
Palavras-chave: sistemas técnicos, pecuária, atividades extrativas, agro-indústria e turismo.
O espaço, como produto do trabalho social, estabelece a condição de continuidade da sociedade, pois cada nova geração sobrevive utilizando-se dos objetos do passado, superpondo-lhes ou acrescentando-lhes outras criações. O geógrafo Allen Scott (1988) diz que "sob as pressões da acumulação, o mundo social está continuamente sendo transformado e retransformado". Com o tempo, o espaço se complexifica e, com as novas condições de comunicabilidade entre os grupos sociais, o espaço ultrapassa o local, tornando-se universal.
As técnicas de uma época estão no espaço produzido. O tempo está, assim, no espaço. Neste, o tempo se denuncia pela presença de diferentes modos de produção. Daí Santos (1980, p.163) dizer que "cada vez que o uso social do tempo muda, a organização do espaço muda igualmente. De um estágio da produção a um outro, de um comando do tempo a um outro, de uma organização do espaço a uma outra, o homem está cada dia e permanentemente escrevendo sua História, que é ao mesmo tempo a história do trabalho produtivo e a história do espaço."
No capitalismo, essas exigências de fazer e refazer formas assumem um caráter cíclico. Harvey (citado por Soja, 1993) sintetizou esse caráter do sistema: "as contradições internas do capitalismo expressam-se através da formação e re-formação irrequietas das paisagens geográficas. É de acordo com essa música que a geografia histórica do capitalismo tem que dançar, ininterruptamente"
Essa afirmação de David Harvey nos leva ao tema dos ciclos, debatidos e teorizados por pensadores de diferentes posturas ideológicas 2, como a teoria dos ciclos longos ou das ondas de Kondratieff.
Nesse corpo teórico, a análise ultrapassa os limites da economia, porquanto vê o sistema em sua totalidade, incluindo "componentes tecnológicos e sociais em interação com o subsistema econômico (Perez) ou, como nos diz o economista brasileiro Ignácio Rangel: "os ciclos econômicos não são apenas fatos econômicos. São fatos sociais, no mais alto sentido dessa expressão" (Folha de São Paulo, 04/08/88). Se são fatos sociais, exprimem-se nas feições da "segunda natureza".
Esses ciclos estão relacionados com as mudanças tecno-econômicas e sócio-institucionais. À medida que elas apresentam uma sintonia há uma tendência de refazer-se da crise e o sistema toma impulso, fase em que se propõe chamar de fase "A". Quando o sistema capitalismo entra em crise, com o desajuste dos dois subsistemas (tecno-econômico e sócio-institucional), entra na depressão ou fase "B".
Desde o século XVIII que, com o controle e a condensação do conhecimento tecnológico transformado em técnica, o capitalismo reedifica-se e solidifica-se, embora dentro das contradições que lhe são inerentes. Os grandes períodos, grandes ciclos ou ondas longas, de duração entre 50 e 60 anos, são marcados por determinados conjuntos de descobertas, de inovações conjugadas que estabelecem uma nova forma de produção e de consumo, possibilitando uma outra dinâmica à vida global da sociedade, afeiçoando-a a um outro paradigma. Dessa maneira, mudam-se as funções, ressurgem formas novas para melhor atender a reanimação dos fluxos de que resulta a produção de um novo espaço, o espaço da modernidade de então. É porisso que podemos falar do espaço de uma determinada época, de novas funções das formas ressurgentes, de "rugosidades"3, de reestruturação do sistema da renovação do espaço geográfico e de inovação da modalidades e das formas de relações de trabalho.
Na compreensão do economista europeu Joseph Schumpeter (1883-1950), essa fluidez do sistema em, periodicamente, apresentar rupturas e posterior ajustamento deve-se à sua dinâmica basear-se na vaga contínua de destruição criativa. Essa idéia se fundamenta na ação dos empresários inovadores que, diante da crise, assimilam a nova ordem técnica e adotam métodos capazes de produzir a custo menor. A base do contexto capitalista está na "abertura de novos mercados, externos ou internos, e o progresso de organização desde o artesanato até a indústria que, incessantemente, revoluciona a estrutura econômica, destruindo incessantemente a antiga e incessantemente criando uma nova. Este processo de destruição criativa é o fato essencial do capitalismo" (Schumpeter,1946, p.103-4).
Para Soja (1993), "a reestruturação, em seu sentido mais amplo, transmite a noção de uma ruptura nas tendências seculares, e de uma mudança em direção a uma ordem e uma configuração significativamente diferentes da vida social, econômica e política. Evoca, pois, uma combinação seqüencial de desmoronamento e reconstrução, de desconstrução e tentativa de reconstituição..." (p. 193). O espaço é a expressão mais significante dessa mudança. Nesse aspecto, a cidade é o lugar de maior demonstração do espaço reconstruído e criador de extensores capazes de vincular diferentes pontos, proporcionando a abertura de novos mercados que oferecem meios para a nova ordem que se constrói. Dela partem as ordens, as informações e as comunicações que definem as modalidades de uso dos territórios, da organização da produção e de forma de existência do homem.
Embora esse norteamento teórico esteja mais intimamente relacionado ao conjunto global do sistema capitalista, essa reflexão nos leva a compreender porque subespaços também passam por ciclos. Isso ocorre, especialmente, quando notamos a inserção econômica e produtiva desses subespaços. Isto se faz quando esses pedaços de espaço recebem ordens externas, como sempre tem sido o caso do nordeste brasileiro.

extraído de

http://www.ub.es/geocrit/sn/sn119-63.htm

sexta-feira, 29 de abril de 2011

2ªS SÉRIES - RODADA DOHA

2ªs SÉRIES - 2º BIMESTRE






RODADA DOHA

Imperialismo e agricultura - A conspiração de Doha

Enquanto não me chega a inspiração para passar ao papel as minhas reflexões e experiência sobre as alterações que atingem a agricultura neste tempo de mundialização capitalista, olho para a mão que segura a caneta, a mesma que ontem segurava o arado ainda de modelo romano, que virava o chão que nos dá o alimento para a vida e vida para transformar o mundo. Tudo isto para dizer da minha profunda ligação à terra nas suas vertentes ecológica, económica e social. Afinal eu sou um romântico e não sabia, até ao dia em que o Comissário da Agricultura, Franz Fischler, me lançou isso à cara num comité consultivo da PAC (Política Agrícola Comum), numa daquelas reuniões em que o comissário expõe em escassos minutos os objectivos da Comissão e em que raramente é questionado pela simples razão de que os que lá estão estão de acordo com os objectivos. Mas como há sempre uma voz para dizer não, estava lá eu nesse dia e atrevi-me a dizer-lhe que a sua reforma ia trazer a destruição do mundo rural, que o que precisávamos era de outras políticas com preços justos à produção para preservar os numerosos agricultores das diversas regiões. Surpreendido e incomodado porque não gosta que ninguém lhe estrague a encenação, despachou o assunto limitando-se a dizer que eu era um omântico.Franz Fischler foi de resto o Comissário que mais sacrificou a agricultura aos objectivos da mundialização do capital, objectivos esses que neste mês de Novembro conhecem novo episódio com mais uma cimeira da OMC. Para tentar fechar o ciclo de negociações de Doha (*) para a liberalização total das trocas agrícolas e abrir, enfim, as auto-estradas ao «livre comércio» da «economia de mercado», como dizem pudicamente os lacaios deste sistema que não ousam chamar-lhe capitalismo de tal forma ele está mal visto.

Porquê Doha?


As primeiras reuniões dos mandatários do sistema para organizar a globalização tiveram fortes movimentos de protesto. Foi assim que em Seattle (EUA) e em Cancun (México) não puderam chegar a um acordo e no último caso tiveram mesmo de acabar a reunião precipitadamente devido à imolação do companheiro Lee, camponês sul-coreano, que espetou uma faca no ventre num gesto de sacrifício extremo contra a globalização da OMC. Desde então, para evitar grandes manifestações, escolheram Doha, capital do Qatar, onde não pode haver protesto por falta de condições logísticas locais e aí puderem decidir as regras para saquear o sector agrícola.

O contexto geopolítico atual

Com a passagem da agricultura a uma lógica de lucro e a sua subordinação ao capital financeiro e influência crescente das multinacionais, após a ratoeira da dívida externa e as intervenções militares que durante muito tempo amordaçaram os países, o capitalismo quer agora o controlo da agricultura, onde a alimentação tem cada vez mais um papel central como arma para controlar as populações e os países – a dependência cada vez mais forte da importação de alimentos aumenta a dependência política dos países. Estão claros os objectivos da ronda de Doha: alcançar um acordo que permita o domínio da arma alimentar, eliminar milhares de explorações agrícolas familiares. É uma prioridade para o sistema dar corpo ao seu projecto e desimpedir o caminho.

A dinâmica política no plano mundial

Todo este processo de mundialização da agricultura é comandado a partir dos centros de decisão do capitalismo europeu e americano e embora haja os tais países emergentes que despontam na cena política internacional não é ainda o fim da hegemonia ocidental que abriga 90% das empresas multinacionais tem um peso preponderante nas instituições financeiras mundiais, são o centro da decisão em matéria de preços, controlam a dívida externa do Terceiro Mundo e dispõem do braço armado do sistema com 700 bases militares espalhadas pelo mundo. A PAC foi sempre uma política de classe virada contra os pequenos e médios agricultores que se tem acentuado mais em cada reforma e foi sempre um meio de canalizar dinheiro público para os privilegiados das indústrias agro-alimentares, grandes proprietários latifundiários. A partir de 1992, as reformas da PAC tiveram sempre por base a baixa do preço à produção para nivelar os preços internos pelo preço mundial. Isto faz com que a produção nacional entre em colapso porque os preços não reflectem os custos de produção. Segundo a teoria de Ricardo um preço de referência só pode ser aquele que cobre os custos de produção mais altos. Com a mundialização o capitalismo faz o inverso. Mas tudo isto está relacionado com o que ficou conhecido pelo «Consenso de Washington», que determinou o início de uma era neoliberal da economia mundial centrada na sobre-exploração da mão-de-obra e dos recursos da natureza. A Europa mais forte, segundo Sócrates no seu Tratado de Lisboa, é isso mesmo. A passagem à prática do «Consenso de Washington» é mais uma machadada no mundo do trabalho, sejam camponeses ou não. Por isso Sócrates passou a ser o «Senhor Contente» pela aprovação do Tratado.

A agricultura no contexto político internacional

A agricultura tornou-se numa das novas fronteiras de acumulação do capital. Tudo aquilo a que assistimos são as grandes manobras do capitalismo para preparar a sua estratégia para a primeira metade do século XXI, com base num modelo agro-exportador, cujos estudos de rentabilidade económica feitos pelo Banco Mundial dão a seguinte conclusão: para alimentar dentro de um quarto de século a população mundial é preciso duplicar a produção agrícola. Diz o Banco Mundial que só o capital está em condições de realizar essa tarefa. Conclusão perigosa a do Banco Mundial, nem de propósito é uma conclusão para entregar ao capital o imenso jazigo de matéria-prima que é a actividade agrícola. A imposição de um modelo produtivista e agro-exportador tem de ser combatida pois só a agricultura familiar pode assegurar a soberania alimentar. Não podemos ficar reféns de um modelo baseado na especulação e nos jogos da Bolsa, modelo que traz de volta a escravatura e a monocultura como no tempo do colonialismo e que é uma ameaça à biodiversidade e terá consequências directas no fenómeno das migrações internas e externas de camponeses e camponesas empobrecidos, que terão de exilar-se para as regiões ou países mais ricos e isto diz respeito a 50 milhões de camponeses por ano mundialmente falando. A velha questão da posse e uso da terra vai conhecer novos contornos. A teoria de alguns agrónomos da nossa praça de que a terra já não é precisa para produzir mas para consumir não passa no exame. O capital está a comprar ou a alugar as melhores terras em todo o mundo,como acontece com os espanhóis no Alentejo!
Em Portugal vamos nós ficar dependentes do arroz asiático que já tem tantas bocas à sua espera?! A par das desigualdades crescentes em todos os países, é previsível o aparecimento de uma nova classe de ricos no hemisfério Sul, resultado do modelo agro-exportador e da escravatura. Mas o projecto do capitalismo e os estudos do Banco Mundial podem não dar certos, o saque da natureza tem limites, a terra não se adapta às políticas, as políticas é que se adaptam à terra. A terra para produzir precisa de ser acarinhada e ambientalmente preservada, mas isso não se encaixa na lógica do lucro. Para um marxista-leninista é fundamental observar estas alterações para poder interpretar os fenómenos societais que entretanto se vão produzindo. Tanto mais que o capitalismo declarou uma guerra atípica e assimétrica cujo campo de batalha é na cabeça das pessoas.

Eu só tenho pena é das minhas vacas...

Todos os sectores da agricultura estão em crise mas é sem dúvida o sector do leite que mais tem dado nas vistas pelas acções espectaculares dos seus produtores e porque a crise atinge produtores de um patamar elevado que, pela sua dimensão, julgavam não serem atingidos. Primeiro foram os pequenos e eles não se importaram, diziam mesmo que numa agricultura competitiva não havia lugar para todos. Eles que foram sempre cúmplices da PAC, chegou agora a sua vez. Os ingredientes perfeitos para uma crise aí estão. Importações a baixo preço e subida dos custos de produção, reestruturação forçada das explorações, normas ambientais, dimensão adequada (concentração) adaptação ao mercado, aumento do volume de produção (subida das quotas) e retracção do consumo. Para o capitalismo nada chega das quatro tetas que tem a vaca. Para o produtor, que ainda por cima tem de sustentá-la, só fica uma teta, as outras três são para o capitalismo mamar e isto sem ter que se ocupar da vaca.
Com a reforma da PAC de 2013, que eu chamo a mãe de todas as reformas, está previsto o fim das quotas leiteiras, o que irá fazer explodir o sector. Sem instrumento de gestão da produção o sector não resiste à adaptação à mundialização, está assim entre as vítimas da conspiração de Doha. Outros sectores vão também ser atingidos com o fim dos instrumentos de gestão da produção e o abate das barreiras de protecção. Recentemente, numa reunião em Bruxelas, ao discutir-se o futuro do sector leiteiro, uma produtora de leite das Astúrias, que tanto poderia ser da Galiza como do Minho, depois de ouvir que a sua actividade está posta em causa, que o mundo rural desaba à sua volta, disse visivelmente emocionada: «eu só tenho pena é das minhas vacas que a elas estou habituada». A esta agricultora com rosto humano e com sentimentos, os tecnocratas, os comissários do capital não só não a entendem com a desprezam. A isto, o Comissário Franz Fischler chamaria de romantismo.

Sem agricultores não há agricultura, não há país

A função dos agricultores vai muito para além da produção de alimentos, contribuem também para a identidade e a soberania nacional. Mas como o capital financeiro quer uma liberdade total de movimento, a soberania nacional é um estorvo. Assim sendo, a ordem é para arrasar e nisso colaboram os governos do PS/PSD/CDS desde há 30 anos, que destruíram um património com dois séculos legado por várias gerações de agricultores. Participando activamente neste projecto do capital, deixaram os agricultores portugueses sem preços e sem mercado e o país exposto a uma crise alimentar grave e com um custo de 3000 milhões de euros/ano de défice agro-alimentar. Num país que tem pouca terra de aptidão agrícola, fomentaram a eucaliptização em detrimento da produção de alimentos e taparam as melhores terras com alcatrão e plataformas logísticas. E aqui recordamos a era cavaquista em que era mais barato importar do que produzir. Depois, num país dependente de importação de alimentos, completaram este programa com florestação de terras agrícolas que tinham boa aptidão para produzir e, por fim, o desligamento das ajudas, que é um convite ao abandono da produção, e mais uns rios de dinheiro público para os grandes proprietários sem obrigação de produzir o que quer que seja. Para a opinião pública é difícil entender os problemas da agricultura dado que governos e ministros andam há vários anos a anunciar uma chuvada de milhões de euros para a agricultura, só que estes não chegam aos verdadeiros agricultores. Entregaram o dinheiro em venda do país e do direito a produzir aos grandes proprietários, latifundiários e outros oportunistas e indirectamente à agro-indústria e à grande distribuição alimentar. São esses os beneficiários da chuva de milhões de euros, em aliança com os objectivos das multinacionais. Apesar deste quadro difícil e complexo, a solução existe. É preciso reconquistar direitos. Soberania alimentar, direito a produzir, direito a proteger-se, remunerar o trabalho não o capital. Como a história não se escreve de avanço, temos de ajudar a escrevê-la, enfrentando o sistema e globalizando a esperança e a luta.

(*) Doha, capital do Qatar, onde se iniciou um novo ciclo de negociações sobre a liberalização do comércio mundial no âmbito da OMC.

extraido do site

http://www.omilitante.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=379&Itemid=32

(algumas palavras aparecem a partir do contexto do português de Portugal)