CARPE DIEN

sábado, 13 de junho de 2009

3ªS SÉRIES - FICHA I - ATAQUE AO WORLD TRADE CENTER

São Paulo, sexta-feira, 21 de setembro de 2001

Número de desaparecidos cresce para 6.333

SÉRGIO DÁVILA DE NOVA YORK Nas últimas 24 horas, aumentou em 911 pessoas o número de desaparecidos no ataque terrorista ao World Trade Center. Segundo números de ontem da prefeitura de Nova York, a polícia contabiliza 6.333 pessoas que ainda não entraram em contato com parentes e amigos desde o dia 11."O número está maior porque acabamos de receber as listas de todos os consulados estrangeiros na cidade", disse o prefeito Rudolph Giuliani. "Deve aumentar ou diminuir nos próximos dias, conforme formos detectando prováveis nomes duplicados."Aumentou também o número de feridos, 6.291 pessoas, todas elas, segundo o chefe de polícia, já localizadas pelas famílias. As equipes de resgate encontraram até agora 241 corpos. O número de sobreviventes continua o mesmo desde o dia seguinte ao ataque, 5 pessoas, mas a prefeitura não fala em desistir de procurar."Há uma possibilidade alta de que alguns corpos jamais sejam encontrados", disse o prefeito de manhã em entrevista na TV. ""Mesmo assim, nem que leve semanas, nós vamos continuar procurando por sobreviventes."Pesquisa divulgada ontem mostra que a maioria da população da cidade discorda da cada vez mais crescente onda de partidários dos seis meses extras para o prefeito, cujo segundo e último mandato vence no dia 31 de dezembro.Segundo levantamento do tradicional Instituto da Universidade Marista, 57% dos ouvidos acham que Giuliani deve passar o cargo para seu sucessor na data marcada, contra 33% que pensam que ele deve ficar mais.Para viabilizar a permanência do prefeito além do limite atual, a câmara dos vereadores teria de votar lei emergencial autorizando. Acontece que o presidente da casa, Peter Vallone, é pré-candidato ao cargo de Giuliani.Choveu o dia inteiro de ontem em Manhattan, o que afetou o trabalho de resgate. De novo, as equipes foram retiradas do local, onde só continuaram trabalhando os equipamentos de remoção.Pela manhã, Rudolph Giuliani ciceroneou 40 senadores de Washington que vieram ver in loco os escombros. A excursão cívica se torna cada vez mais rotineira.À tarde, foi a vez de o primeiro-ministro Tony Blair chegar ao WTC. "Há ainda choque e descrença, raiva e medo, mas também um profundo senso de solidariedade", disse o britânico, depois de participar de uma missa.


São Paulo, sexta-feira, 21 de setembro de 2001


EUA alteram lei de imigração
DA REPORTAGEM LOCAL Os EUA anunciaram na última quarta-feira que os imigrantes ilegais que possam ter sido vítimas dos ataques ao WTC não serão enquadrados na lei de imigração.Até então, pela lei, de 1996, nem os ilegais nem suas famílias poderiam receber assistência (jurídica, médica etc.) das autoridades e, quando descobertos, deveriam ser deportados imediatamente.O que o governo fez foi conceder uma espécie de anistia às possíveis vítimas clandestinas dos ataques. Não cabem nessa exceção os demais imigrantes ilegais.A alteração ocorreu no mesmo dia em que o governo norte-americano encaminhou ao Congresso um projeto de lei para fechar o cerco a estrangeiros que estejam em situação oposta: os suspeitos de atos terroristas no país.Nesse caso, o governo quer poder prendê-los e deportá-los sem apresentar nenhuma prova.Ao facilitar a situação das vítimas ilegais, a intenção do governo, de acordo com o anúncio feito pelo porta-voz do Serviço de Imigração Americano (SIN), Daniel Kane, é evitar a subnotificação de desaparecidos e permitir que o país dê amparo a essas famílias.O SIN acredita que algumas dezenas de latino-americanos trabalhavam nas áreas de limpeza e manutenção do WTC e que muitas famílias estão com receio de informar o desaparecimento dessas pessoas, temendo que, se estiverem bem, acabem deportadas.O porta-voz disse ainda que, apesar da anistia oficial, os familiares que preferirem podem procurar os consulados de seus países, que não terão de informar ao SIN a ilegalidade. (SC)

São Paulo, sexta-feira, 05 de outubro de 2001


PISTASFolha tem acesso a registros das chamadas a serviço de emergência de Nova YorkLigações revelam cenas da tragédia
SÉRGIO DÁVILADE NOVA YORK Às 8 horas, cinquenta minutos e 12 segundos da manhã do dia 11 de setembro, uma telefonista do serviço municipal de emergência 911 atendeu o primeiro telefonema vindo do World Trade Center. Ela automaticamente abriu um caso (número 727) e passou a ouvir o que a pessoa tinha a dizer.Era um homem. Afirmava que um avião tinha acabado de entrar numa das torres do complexo. "Possivelmente um avião comercial", disse. Devido à natureza do caso, a funcionária passou a ligação para o Serviço Médico de Emergência do Corpo de Bombeiros do Brooklyn, para onde todas as outras seriam encaminhadas a partir de então.A Folha teve acesso aos registros das ligações. Eles estão sendo usados como prova no tribunal de inquisição que funciona secretamente em Manhattan desde o ataque. A centralização dos telefonemas se deu excepcionalmente no Brooklyn porque, ironicamente, o Centro de Emergência de Nova York ficava no complexo do World Trade Center.Às 8h50m22, uma mulher liga para dizer que o prédio explodiu (não era verdade, a primeira torres só cairia uma hora depois; o que ela descreveu foi a impressão de quem estava vendo o ataque de dentro). Sete segundos depois, outra comunica o mesmo.São telefonemas feitos aos berros, confusos. Às 8h52m53, uma mulher diz que há um grande buraco no lado direito. Às 8h53m28, um homem avisa que alguém se jogou em seu prédio.Os oficiais começam a dar retorno também para o Serviço do Brooklyn. A comunicação entre eles e a central foi gravada por um rádio-amadorista da Califórnia, que divulgou o conteúdo ontem. Os paramédicos Mario Santoro e Keith Fairben avisam que estão entrando na torre norte (foi a última comunicação; ambos estão entre os desaparecidos).Às 8h56m44, um homem diz que se encontra no 87º andar com mais quatro pessoas e que está pegando fogo onde eles estão. Treze segundos depois, um telefonema anônimo do 47º andar diz que o prédio está se mexendo.Os relatos vão se sucedendo. Um deles diz se chamar Hanley e que há fumaça no 106º andar (Christopher Hanley está entre os desaparecidos; estava visitando o prédio naquele dia). Outro, Lutnick, avisa que a fumaça chegou ao 104º agora (Gary Lutnick é o irmão do proprietário da corretora Cantor Fitzgerald, também entre os desaparecidos).Às 9h03, o segundo avião atinge a torre sul. Os telefonemas se multiplicam. Às 9h09m14, uma mulher diz que está no escritório com 60 pessoas e eles não sabem para onde ir. Às 9h09m21, um homem diz que as pessoas estão pulando por um buraco na janela e que ele acredita que ninguém os esteja pegando lá embaixo.Alguém liga e afirma que o teto cedeu no 105º andar. Outra avisa que está grávida e não consegue mais respirar entre a fumaça. Às 9h39m40, uma mulher diz que se chama Melissa, fala que está muito quente e acha que vai morrer. Pede para ligar para sua mãe. A ligação cai antes disso.Às 9h50, a torre sul desaba. Todas as ligações que estavam em andamento no prédio ficam mudas. Mais alguns segundos e começam a pipocar nas telas do centro de emergência vários avisos de "ligação interrompida". Várias atendentes começam a chorar, mas são repreendidas.

São Paulo, quinta-feira, 03 de junho de 2004


CONTARDO CALLIGARIS Paranóias e conspirações
Ainda bem que, de vez em quando, alguém me "informa" direito (as aspas significam que estou sendo irônico; melhor dizer, nunca se sabe).Por exemplo, você sabia que, entre o 11 de setembro de 2001 e o dia dos atentados de Madri, passaram-se exatamente 911 dias? Ora, 9-11 (setembro-11) é, nos EUA, a abreviação da data do ataque ao World Trade Center. Mas não pense que se trate apenas de uma "óbvia" assinatura da Al Qaeda. Não, isso é só o começo: 911 é o número telefônico que, em Nova York, serve para chamar a polícia em caso de urgência. Ironia dos terroristas? Fácil demais. Será que não é um criptograma que revela os verdadeiros autores do atentado? Não é a prova de que foi o governo americano que orquestrou o ataque que justifica a guerra em curso?Você duvida? É porque você não sabe que, de manhã cedo, em 11 de setembro, milhares de judeus que trabalhavam nas torres gêmeas (sempre eles, ah?) receberam telefonemas anônimos exortando-os a não ir para o trabalho naquele dia. Está entendendo?Outro exemplo. Você não estranhou o momento em que o "New York Times" publicou o artigo de Larry Rohter sobre a "preocupação nacional" brasileira com os hábitos alcoólicos do presidente Lula? Foi logo quando o Brasil acabava de ganhar a guerra dos subsídios agrícolas na Organização Mundial do Comércio. Quem tinha interesse em desacreditar o Brasil pelo mundo afora, ah? E se Larry Rohter fosse um agente da CIA há tempo escondido no Brasil para ser ativado de repente na hora de tamanha necessidade estratégica? Aliás, nem é preciso que ele seja um agente, pois é notório (não é?) que a imprensa americana é escrava do complexo político-militar-midiático do império. Rohter pode ter obedecido ao "New York Times", que, por sua vez, deve ter respondido a um daqueles telefonemas do governo que eles recebem a cada dia na hora de decidir a pauta.Ao escutar pacientes paranóicos capazes de delírios organizados, é fácil constatar que um delírio não é necessariamente menos verossímil que outras crenças que não nos parecem delirantes. Por exemplo, a convicção de que Deus exige que os homens se transformem em mulheres para servi-lo melhor é tão verossímil quanto a idéia de que, a cada missa, a hóstia se transforma realmente no corpo de Cristo. A diferença é apenas esta: o projeto de mudar de sexo para servir a Deus não é coletivo, enquanto a transformação da hóstia (a transubstanciação) é uma fé compartilhada.Os delírios são crenças que não conseguem se socializar.Hoje essa diferença se tornou incerta. Graças à internet, qualquer delírio pode se tornar público, circular e conquistar adeptos. Logicamente, este é o argumento decisivo de quem delira: está num site na internet. E, olhe lá, é um site que recebe 12 mil visitantes por dia.Mas a facilidade com a qual os delírios se socializam não explica sua extraordinária proliferação.Em 11 de maio (de novo, o 11, viu?), chegou às livrarias americanas "The Rule of Four" (A Regra de Quatro), de Ian Caldwell e Dustin Thomason. Em duas semanas, o romance já é número três da lista dos mais vendidos. Conta a história de dois amigos que devem descobrir os arcanos de um texto renascentista (que existe e que é mesmo repleto de enigmas não resolvidos) para entender o que acontece ao redor deles e, enfim, salvar a pele. Em princípio, quem gostou de "O Código da Vinci", de Dan Brown (número um da lista há 60 semanas nos EUA e agora número um no Brasil), vai gostar de "The Rule of Four".Os comentadores propõem uma genealogia que começa com "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, e continua com esses dois romances recentes. De fato, os três livros têm em comum um gosto pela cultura da Idade Média (no caso de "O Nome da Rosa") ou do Renascimento (para os outros dois), épocas em que o mundo ainda era encantado, ou seja, percebido como um teatro de símbolos e signos que, uma vez decifrados, revelariam que os desenhos da providência divina se estendem, feito vasos capilares, até a periferia da criação. Naquela época, só vivia uma vida sem sentido quem não se desse ao trabalho de resolver as charadas inscritas em cada página do mundo.

São Paulo, domingo, 10 de setembro de 2006


Cinco anos depois, EUA estão mais fracos e sós
Guerra no Iraque foi maior razão da perda de influência do país após o 11 de Setembro
NA MANHÃ DE 11 DE SETEMBRO DE 2001, o mundo assistiu ao maior ataque sofrido pelos Estados Unidos em seu próprio solo. A ação terrorista matou ao menos 2.973 pessoas, derrubou os prédios-símbolo da cidade mais rica do país e teve como autores 19 extremistas armados de bilhetes aéreos só de ida, estiletes baratos e determinação suicida. Aos cinco anos do evento, que serão completados amanhã, a Folha ouviu dezenas de analistas, e as conclusões parecem mais diluídas e menos peremptórias que as feitas no calor da tragédia.Há um consenso, porém: meia década depois, a percepção é a de que os EUA estão mais fracos. Resume o historiador britânico Eric Hobsbawm: "Politicamente, estão mais fracos. Economicamente, não estão mais fortes. E descobriram que seu poderio militar é incapaz de resolver todos os problemas".
Marty Lederhandler-11.set.2001/Associated Press
Vista do Empire State Building com as Torres Gêmeas do WTC exalando fumaça após ataque; pesquisa aponta que um terço dos americanos acredita que Casa Branca esteja "envolvida" nos atentados do 11 de Setembro, que mataram quase 3.000 pessoas SÉRGIO DÁVILADE WASHINGTON
No dia 12 de setembro de 2001, acadêmicos, personalidades e experts de todas as nacionalidades, escolas e tendências arriscavam seus primeiros prognósticos. A "quente", tudo parecia mais definitivo: era o começo do século 21. Era o fim do Império Americano. O início da Guerra Oriente-Ocidente. A falência da aviação comercial como negócio. Houve mesmo quem decretasse, sem ironia, a morte da ironia. Cinco anos depois, enquanto Hobsbawm aponta os limites do poderio norte-americano, outro historiador, o escocês Niall Ferguson, de Harvard, especialista na cronologia de impérios, detecta seus "freios". "Publicamente, os líderes norte-americanos negam que tenham um destino imperial. Mas os EUA são um império -jovem, com freios domésticos, mas império". Diferentemente do que ocorreu com impérios anteriores e mais longevos, porém, os "freios" definem o americano. Déficit recordeSão três, segundo Ferguson: escassez de soldados, déficit orçamentário e déficit de atenção do público. No auge da insurgência no que viria a ser o moderno Iraque, nos anos 1920, havia um soldado britânico para 24 iraquianos; hoje, há um soldado norte-americano para 210 iraquianos. Nestes cinco anos, o país gastou US$ 400 bilhões (ou meio PIB brasileiro) com a chamada "guerra ao terror", o que ajudou a levar o país ao maior déficit de sua história recente. E a opinião pública moderna tem uma "vida útil" de cerca de 18 meses: a mesma maioria que apoiava a intervenção no Iraque em abril de 2003 hoje acha a guerra um desastre. Outra constante nas respostas: o ataque terrorista colocou a nu a política externa norte-americana, que vinha sendo gestada há pelo menos duas décadas e da qual o presidente George W. Bush se tornou apenas a face mais evidente. Para Neil MacFarlane, de Oxford, "a principal mudança é o enfraquecimento das leis internacionais sobre o uso da força". "Desde que os EUA desenvolveram o conceito de defesa preventiva, a principal potência do mundo quer o direito de atacar quem quiser caso se sinta ameaçada", acredita. Ou, como define mais diplomaticamente Rubens Barbosa, que era embaixador do Brasil em Washington no dia 11 de Setembro, "no contexto externo, emerge uma nova agenda mundial, com conseqüências na área política, diplomática e também militar". Joseph Nye, professor de relações internacionais da Universidade Harvard, vê no desequilíbrio dos EUA ao usar seus recursos a origem de seu enfraquecimento global. "Os EUA estão mais fracos porque colocaram ênfase demais no chamado "hard power" (poder militar) e reduziram sua atração em "soft power" (diplomacia e comércio)", diz Nye. O enfraquecimento do país não resulta num fortalecimento de seus inimigos, por paradoxal que pareça. Vários analistas apontam a ação de 11 de Setembro como uma estratégia equivocada da Al Qaeda, grupo terrorista que seria quase dizimado nos anos seguintes pelas forças americanas, embora seu líder, Osama bin Laden, continue vivo, solto e atuante. "Mas a Al Qaeda se beneficiou ao fazer o mundo perceber a agressividade da política externa de Bush entre os muçulmanos, especialmente na Guerra do Iraque, mas também nas ações de Israel nos territórios palestinos e, mais recentemente, no Líbano", acredita Juan Cole, professor de história da Universidade de Michigan e criador do blog liberal Informed Comment. "Isso ajudou a recrutar uma nova geração de radicais." Maior erroA Guerra do Iraque. Se fossem instados a apontar um grande equívoco cometido pelos EUA nesse período, a invasão daquele país seria o vencedor inconteste. "É o fato histórico mais importante", decreta Melani McAlister, da Universidade Georgetown. "O Iraque é um fracasso público que encoraja os inimigos." A intervenção no Iraque é significativa da "fraqueza" norte-americana, diz Maria Regina Soares de Lima, professora de relações internacionais da PUC do Rio. "Na sociedade de massas e da democratização, o custo da conquista estrangeira é muito alto, não bastam a força e a tecnologia militar." Com a "guerra errada" (sendo a "guerra certa" a do Afeganistão, que derrubou o Taleban, que dava guarida à Al Qaeda), os EUA sacaram cedo demais o cheque de solidariedade global que conseguiram logo após o 11 de Setembro. "Você imagina alguém levando flores às embaixadas americanas em algum lugar do mundo hoje?", pergunta Mary Dudziak, organizadora do livro "September 11th in History - a Watershed Moment?" (11 de Setembro na história - um divisor de águas?). Ou, como coloca David Simpson, autor de "9/11 - The Culture of Commemoration" (11/9, a cultura da comemoração), "os EUA destruíram a boa vontade do mundo ao usar o desastre como pretexto para invadir o Iraque. Os episódios de tortura apenas confirmam o fim do papel dos EUA como líder mundial baseado apenas na superioridade moral." O tamanho do equívoco pode ser medido em números. Como resultado dos ataques daquele dia às torres gêmeas, perderam a vida 2.973 pessoas de 23 nacionalidades, brasileira inclusive. Até ontem, 2.659 soldados das Forças Armadas norte-americana haviam morrido em ação no Iraque. O número de mortos deve ser igualado até o fim do ano.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

3ªS SÉRIES - FICHA II - CONFLITOS COM JOVENS IMIGRANTES NA FRANÇA

São Paulo, quarta-feira, 28 de novembro de 2007


Violência continua e Sarkozy faz reunião para estudar respostas Villiers-le-Bel tem novos embates e atos chegam a Toulouse (sul); para socióloga, confrontos são fruto de relação tensa entre jovens da periferia e polícia CÍNTIA CARDOSOCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS
As noites consecutivas de conflitos entre a polícia e jovens no subúrbio parisiense de Villiers-le-Bel mobilizaram a cúpula do governo francês. Hoje o presidente do país, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro, François Fillon, reúnem-se com um grupo de ministros para avaliar a situação.Ontem o governo ordenou o aumento da segurança nos subúrbios ao norte de Paris, e a polícia enviou 130 policiais extras para tentar impedir uma terceira noite de protestos. Segundo a Associated Press, o número de policiais nos subúrbios ao norte de Paris chegou a mil ontem. Ainda assim, jovens em Villiers-le-Bel incendiaram lixeiras e lojas. Os conflitos se estenderam até Toulouse, no sul, onde até 20 carros e uma biblioteca foram queimados. Ao menos 20 jovens foram presos.O número de policiais feridos havia chegado a 120 até ontem, seis deles em estado grave. Quatro foram atingidos por armas de fogo, segundo o "New York Times". Além de Villiers-le-Bel, municípios vizinhos como Cergy, Ermont, Goussainville, Fosses e Argenteuil também registraram tumultos desde domingo. Mais de 60 carros foram queimados.ContençãoEm 2005, quando eclodiram conflitos nas periferias francesas que duraram três meses, Sarkozy, então ministro do Interior, chamou de "ralé" os jovens das periferias, inflando os ânimos dos revoltosos."Dessa vez, o governo tem sido extremamente modesto nas atitudes e declarações. Em 2005, o tom foi de provocação", disse à Folha Angelina Peralva, professora de sociologia da Universidade Toulouse le Mirail. Graças a isso, Peralva afirma que é possível que a crise não tenha um alcance nacional.Os confrontos dos últimos dias mostram um embate violento contra as forças policiais. Encapuzados e armados com cacos de vidro, barras de ferro e até uma arma de caça, grupos de jovens afrontaram a polícia nas ruas de Villiers-le-Bel.Numa visita à cidade na terça-feira, o premiê francês condenou a violência "intolerável " e "incompreensível".O estopim dos confrontos foi a morte de Moushin, 15, e Larami, 16, que estavam em uma moto quando se chocaram com um carro de polícia.O Ministério Público abriu investigações. A procuradora de Pontoise, Marie-Thérèse de Givry, declarou que o caso deve ser tratado como um "acidente de circulação" [tráfego]. A princípio, os policiais poderiam ser indiciados por homicídio involuntário e omissão de socorro. Especula-se que os policiais tenham deixado o local do acidente muito rápido e sem prestar a devida assistência.Mas as investigações também não excluem a responsabilidade dos jovens, que estariam conduzindo a motocicleta acima do limite de velocidade.Tensão socialAssim como em 2005, a revolta de adolescentes da periferia contra a polícia ressalta o problema da inserção social desses jovens, na sua maioria filhos de imigrantes da África subsaariana e do Magreb. Em um relatório de 2001, o INSEE, órgão de estatísticas do governo francês, já considerava "preocupante" a situação social da região Plaine de France, onde se localiza Villiers-le-Bel.A região combina altas taxas de desemprego e população com baixo índice de qualificação profissional. No caso dos jovens, a proporção de desempregados encosta em 30%. A média geral francesa é de 8,6%.Mas Peralva enfatiza que o núcleo da tensão dos subúrbios está na relação entre os jovens e a polícia. "A polícia cristaliza a relação tensa da sociedade com os imigrantes. Nessas periferias há um forte ódio contra a polícia. Há ainda uma descrença na autoridade policial, que não tem legitimidade aos olhos dessa população", avaliou.O atual presidente, Sarkozy, vê na questão dos subúrbios um problema policial. A tônica é aumentar a repressão.


São Paulo, segunda-feira, 21 de novembro de 2005


MUNDO O Folhateen conversou com alguns dos jovens que causaram tumulto na França nas últimas semanas; saiba como eles são Capitães da fumaça
FÁBIO VICTOR ENVIADO ESPECIAL A PARIS
No último dia 27 de outubro, Bouna Traore, 15, e Zyed Benna, 17, achavam que estavam sendo perseguidos pela polícia e se esconderam numa central de energia em um subúrbio de Paris. Morreram eletrocutados. Outros jovens usaram o episódio para se vingar do que reclamam sofrer há tempos nas periferias francesas: repressão policial, discriminação, preconceito, desemprego.Passaram a tocar fogo em tudo, principalmente em carros. Estava formada a maior revolta social dos últimos 40 anos no país que diz ser o berço da democracia moderna. Na linha de frente do conflito, garotos. A revolta dos incendiários franceses, que espalhou pelo mundo imagens chocantes de línguas de fogo consumindo automóveis e prédios é uma guerra "teen".Durante uma semana, a Folha percorreu várias cidades da periferia de Paris e conversou com dezenas de incendiários. Há muitos com 14 anos, a maioria está entre 16 e 18, dificilmente têm mais de 20. Assim como Bouna, com origens no Mali, e Zyed, de ascendência tunisiana, a maior parcela dos revoltosos nasceu na França e tem como pais ou avós imigrantes do norte da África.São quase todos muçulmanos, embora seja equivocado relacionar os distúrbios a motivos religiosos. Também não parece certeiro ver neles motivação política.Versão incendiária dos "Capitães da Areia", do clássico de Jorge Amado, adolescentes rebeldes que
usavam o crime como componente libertário, os garotos franceses não parecem portadores de uma mensagem engajada. Queimar carros e quebrar lojas é a expressão de sua independência. E de sua ira contra um inimigo definido.Derrubar Nicolas Sarkozy, ministro do Interior francês que adotou uma política linha-dura de combate ao crime nas periferias é o objetivo-desafio da molecada.
Negros ou de traços árabes, costumam olhar um
intruso com cara de malvados. Mas basta uma
aproximação, um tratamento respeitoso, para que um diálogo tranqüilo se estabeleça.Uns chegaram a contar onde compraram gasolina, como prepararam os coquetéis molotov que atiraram nos carros na noite anterior. Esses normalmente dão os seus nomes completos e não têm um pingo de medo de falar dos crimes que cometem. Relatam que são traficantes ou que simplesmente consomem drogas.Mas há muitos que se recusam a dar nome, ou os que, como astros da cultura hip hop que admiram, dão apenas um apelido.A paixão pelo gangsta rap fica nítida nas roupas que vestem (calças largonas, bonés, abrigos esportivos com capuz, tênis) e na atitude (gestos com as mãos, caras de durões). Alguns usam dreadlocks no cabelo. Brincos e colares são comuns.Sem ideologia, sem um líder, sem aviso prévio, queimaram quase 10 mil carros em pouco mais de duas semanas. Levaram o governo da França a adotar o estado de emergência, medida extrema que amplia o poder da polícia e limita as liberdades civis. E têm menos de 20 anos.


São Paulo, domingo, 13 de novembro de 2005


EUROPA - Reportagem da Folha passa a noite em Clichy-sous-Bois, ponto de partida dos conflitos na França, e constata a tensãoCidade onde tudo começou é assustadora
FÁBIO VICTORENVIADO ESPECIAL A CLICHY-SOUS-BOIS Os hotéis Formule 1, um êxito do conceito de hospedagem popular da rede francesa Accor, a maior da Europa, têm quartos muito simples, banheiros "de avião" para uso coletivo e diárias a preços convidativos. Em São Paulo, onde há três deles, uma noite na unidade dos Jardins sai a R$ 63 por pessoa.Em Clichy-sous-Bois, periferia ao norte de Paris, também tem um Formule 1. A entrada, bem cuidada, é cercada de cipestres e plátanos, e a tarifa custa 29 (cerca de R$ 75), uma pechincha para o padrão francês. Mas hospedar-se ali, bem no meio da cidade onde emergiram os distúrbios sociais que há 16 dias agitam o país, tornou-se um suplício.O hotel fica em frente à Cité Le Forestier, um conjunto habitacional degradado, com 24 prédios de pintura descascada, vidros quebrados, varais nas varandas e mato seco por todos os lados. É, de longe, a vizinhança mais assustadora entre as muitas periferias que a Folha visitou na última semana. Lá moravam os dois adolescentes que morreram eletrocutados em 27 de outubro, quando entraram numa central de energia enquanto fugiam da polícia. A morte dos dois foi o estopim da violência que se espalhou pelo país, com saldo até aqui de uma morte, quase 8.000 carros e dezenas de prédios queimados e cerca de 2.500 detidos.A revolta foi agravada quando, dias depois do episódio, policiais atiraram uma bomba de gás lacrimogêneo dentro da mesquita Bilal, também em Clichy, na hora da oração. O templo muçulmano está a 300 metros do Formule 1.Como muitos outros ao seu redor, esse município com 28 mil habitantes e taxa de desemprego beirando os 25% virou um encrave dos rebeldes. Centenas de carros foram queimados nas últimas semanas nas redondezas do hotel. Uma escola primária ardeu lá perto, assim como um ginásio.Desde que tudo começou, ônibus e táxis deixaram de circular à noite. Quando escurece em Clichy, quem está fora dificilmente consegue entrar; quem está dentro não pode sair. Ou seja, uma das raras maneiras de um forasteiro passar uma noite inteira ali é se hospedando no F1.Foi o que fez a reportagem da Folha na última quinta-feira.ViagemChegar a Clichy a partir de Paris é trabalhoso. Da estação de Bobigny-Picasso, um dos extremos da linha 5 do metrô, toma-se o ônibus 146, que, 50 minutos e 26 paradas depois, está no bulevar Emile Zola, a rua do hotel. No caminho se avistam as cinzas do ginásio esportivo Armand Desment, incendiado pelos adolescentes. Percebe-se que era uma construção enorme.A história do hotel dá a medida de sua vizinhança. Inaugurado em 1991 pela Accor, transformou-se ao longo dos anos num ponto de drogas. Em 2000, depois que a polícia descobriu meio quilo de cocaína num quarto, a rede decidiu fechá-lo. Só o reabriu em setembro passado, reformado.Há muitas vagas disponíveis. O atencioso gerente Aomar Ilikoud, 36, francês descendente de argelinos, insiste que o movimento não caiu por causa dos distúrbios. "No máximo 2%", calcula.Na quinta eram 40 os apartamentos ocupados, de 98.Igor Morye, que desce do seu quarto para pegar um salgadinho na máquina, ajuda a entender por que o fluxo do estabelecimento está mantido. Fotógrafo da "Gazeta Wyborcza", maior diário da Polônia, ele é um dos muitos jornalistas que acorreram ao local em busca de uma visão mais microscópica da crise das "banlieues" (periferias) francesas.Morye, 30, teve um dia espinhoso. Caminhava pelo bairro com a repórter do seu jornal, grávida de cinco meses, quando foi atacado com um barra de ferro por dois jovens. Fugiu correndo, sofreu só ferimentos leves. Não tem certeza de por que lhe fizeram aquilo. Talvez por saberem que era jornalista, talvez por ser loiro de olho claro, ele interpreta.Escurece, e o polonês convida para mostrar o local, quase ao lado do hotel, onde um carro foi queimado na noite anterior, o estacionamento de um pequeno estádio. No chão só resta um rastro negro -a polícia já removeu a carcaça. Atrás de um furgão, um adolescente segura uma lata. Nos avista e vem em nossa direção com olhar de poucos amigos. Apressamos o passo, enquanto ele começa a gritar insultos incompreensíveis.Cidade fantasmaClichy-sous-Bois não adotou o toque de recolher, que poderia ter solicitado depois que o governo decretou estado de emergência, na terça. Mas é como se o tivesse feito. As ruas começam a se esvaziar rapidamente.Uma mulher fecha o seu Renault Clio dourado. É Naima Nacer, 28, vendedora desempregada, que mora com os pais, marroquinos, na Cité Le Forestier. O automóvel vai dormir na rua. "Tenho medo de que queimem, mas vou fazer o quê?" Ela confia que os alvos preferenciais são os carros abandonados. A irmã, Samira Latin, liga no celular de Naima, e se estabelece uma espécie de conferência. "Ela está dizendo pra você botar aí [no jornal] que Sarkozy tem razão de agir dessa forma."É uma manifestação incomum de apoio de moradores dos subúrbios ao ministro do Interior francês, Nicolas Sarkozy, odiado pelos incendiários, a quem chamou de "escória". Neste ponto as irmãs se dividem. Naima não tolera Sarkozy. Em comum, as duas têm o desejo de se mudar de Clichy o mais rápido possível.Serge Lagentie, um incendiário de 15 anos, descendente de guadalupenses, desempregado cujo desejo profissional é ser mecânico, diz que desceu apenas para "fumar um cigarrinho". Diz ele: "Enquanto Sarkozy não cair, isso não vai parar". E sai.Antes dos distúrbios, o portão do hotel fechava às 22h, agora fecha às 20h. Até aqui, conta o gerente Ilikoud, não houve ameaças ao estabelecimento. "Acho que sabem que um incêndio aqui causaria muitas mortes, o crime seria muito maior." Mas recomenda aos hóspedes que não vão para a rua à noite de jeito nenhum.Vigia doutorO vigia noturno é o camaronês Apolin Pehuie, 28. Ao lado do recepcionista Styve, 24, passa a madrugada entretido com jogos e vídeos num laptop, o qual usa também para estudar para seu doutorado em direito financeiro. Afirma que a função lhe traz uma certa inquietação, mas não de todo. "Se uma lâmpada já está queimada, você não pode ter medo de um curto-circuito", filosofa.Meia-noite. Chegam novos hóspedes: um casal de canadenses que tem parentes morando ali perto, um guineano deixado pelo primo. Juntam-se a gente como o senegalês Abou Tall, 31, cozinheiro que mora no F1 com a família , ou o recém-divorciado Eric Riviere, 41. "Os distúrbios não me incomodam. Quando sinto que tem um carro queimando, saio para ver. Aliás, não sei por que se impressionam. Queimar carros sempre foi a coisa mais comum na periferia de Paris."À 1h, 7º C, arrisco uma saída à rua, totalmente deserta. Um homem alto, vestindo um capuz, se aproxima. À primeira pergunta, vem uma outra: "Você é jornalista"? Minto. Ele pega o celular e se afasta olhando para trás, como se chamasse alguém. Volto apressado para o hotel, bato no portão, mas Apolin e Styve não vêm. O encapuzado continua olhando de longe. Enfim Apolin vem abrir. Desisto de cruzar a fronteira.Nenhum carro queimou em Clichy na madrugada de 11 de novembro. O único cheiro estranho partiu do precário aquecedor do quarto do Formule 1, incapaz de aquecer aquela noite gelada.



São Paulo, domingo, 13 de novembro de 2005
EUROPA - Lyon, terceira maior cidade, adota toque de recolherBatuque e passeata desafiam proibição de manifestação em Paris
DO ENVIADO A PARIS Manifestantes de partidos de esquerda desafiaram ontem a proibição de qualquer tipo de reunião pública decretada pelo governo -que recebeu ameaças de ataques a pontos turísticos- e realizaram uma passeata no centro da capital francesa.Sob batuques e gritos exortando a demissão do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, protestavam também contra o toque de recolher, o estado de emergência e a discriminação racial.Cerca de 500 pessoas, lideradas pela LCR (Liga Comunista Revolucionária) e por várias associações civis, reuniram-se debaixo de garoa na praça de Saint-Michel durante duas horas e seguiram em passeata pela margem esquerda do rio Sena por cerca de 1 km.A Folha acompanhou a passeata. Com forte aparato de segurança, a tropa de choque francesa, porém, bloqueou todas as passagens na altura da avenida Voltaire, inclusive a da ponte Royal, que dá acesso ao Museu do Louvre, forçando o recuo dos manifestantes, que seguiram por ruas estreitas até o bairro St. Germain, onde se dispersaram. Os manifestantes prometeram se reunir hoje."Não podemos admitir essa política colonial. É desse jeito que você começa a privar os cidadãos das liberdades civis. Não iremos permitir isso", disse a médica Fátima Benjelloun,50, do Movimento dos Indigentes da República.Ontem à noite, as principais ruas parisisenses estavam sob forte esquema de segurança. Cerca de 3.000 policiais patrulhavam estações de trem, a Torre Eiffel e a avenida Champs-Elysées.Lyon, terceiro maior município da França (sudeste do país), adotou ontem o toque de recolher, impedindo menores de idade de sair às ruas desacompanhados de maiores das 22h às 6h. A medida, que vai até amanhã de manhã, vale para mais dez cidades da região. Também ontem, pela primeira vez desde o início da violência no país, manifestantes e policiais se enfrentaram no coração de Lyon. Forças de segurança lançaram granadas de gás lacrimogênio para dispersar grupos de jovens que atiravam projéteis e latas de lixo.Em Carpentras, no sul do país, um mascarado em uma moto atirou duas bombas incendiárias em uma mesquita e fugiu. Havia pessoas rezando na hora do ataque, no começo da noite de anteontem, mas ninguém ficou ferido.O presidente Jacques Chirac, o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, e o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, condenaram o atentado e declararam solidariedade à comunidade muçulmana da cidade.NúmerosContra as expectativas de uma repetição da violência verificada há sete dias e de ameaças de intensificação de ataques incendiários, a primeira madrugada do final de semana na França foi relativamente tranqüila.Segundo números divulgados ontem pela polícia, houve um ligeiro aumento no número de veículos queimados (502) e de pessoas presas (206) em relação à madrugada da sexta-feira (463 e 201, respectivamente).Do início dos distúrbios, há 17 dias, até o fechamento desta edição já haviam sido incendiados, em todo o país, quase 8.000 automóveis e presas 2.440 pessoas, com aproximadamente 300 localidades atingidas pela sedição.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

3ªS SÉRIES - PROJEÇÃO AZIMUTAL

MATERIAL DE APOIO AO PROJETO ENERGIA DOS PROFESSORES DE



PORT/ING/FIS/GEO


Projeção Azimutal Equidistante São executadas a partir de um plano tangente sobre a esfera terrestre; o ponto de tangência se torna o centro dessa representação cartográfica. As áreas próximas a esse ponto de tangência apresentam pequenas deformações; entretanto, as mais distantes são muito distorcidas, ou então desaparecem porque elas abrangem apenas um hemisfério quando centradas num dos pólos. Representa com precisão as distâncias em qualquer direção a partir de um centro, que pode ser qualquer ponto da superfície terrestre. Serve principalmente para definir rotas aéreas, para transporte de pessoas, mercadorias, soldados ou armamentos.





As Projeções azimutais são as mais usadas geopoliticamente, pois podem realçar o “status” de um país em relação aos demais da Terra. Durante a Guerra Fria, por exemplo, ora se centrava em Washington, ora em Moscou; podia se controlar os mísseis e ogivas nucleares apontados para uma ou para outra superpotência, cujas rotas passavam pela Zona Polar Ártica. A Europa Ocidental (sob influência americana) e a Oriental (sob influência soviética) poderiam ser visualizadas através dessa projeção. Os agentes da globalização, como os bancos internacionais e as transnacionais, dão preferência à projeção azimutal, colocando evidentemente o ponto de tangência em suas sedes, nos países centrais.Os mapas aeronáuticos e de navegação marítima também usam a projeção azimutal, visto que a maior parte do comércio internacional e transportes de cargas e pessoas se faz no hemisfério norte, onde se concentram os países desenvolvidos.










Projeção plana ou azimutal – a projeção é construída com base num plano tangente ou secante a um ponto na superfície de referência. (Figura 14).
Figura 14: Projeção plana.

domingo, 10 de maio de 2009

CONVITE

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

3ªS SÉRIES - CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES - O LIVRO





SUGESTÃO DE OBRA QUE DEVE SER LIDA POR QUEM DESEJA E PRECISA ENTENDER O "CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES"







baixar neste link














observação: é necessário se cadastrar.






Samuel Phillips Huntington, 1927 - ?, Professor Doutor em Ciência Política pela Universidade de HarvardO Choque de Civilizações - e a Mudança na Ordem MundialGradiva3ª Edição, 2006SinopseSamuel Huntington, um dos grandes especialistas em ciência política do Ocidente, apresenta nesta obra uma fundamentada análise do estado da política mundial após a queda do comunismo. Descrevendo de modo magistral -- e este é um dos aspectos da obra que torna a sua leitura e o seu estudo absolutamente indispensáveis -- o clima actual e o leque de possibilidades da evolução da política mundial, o autor apresenta a sua tese (naturalmente controversa em alguns dos seus aspectos e implicações) do modo como as «civilizações» se substituíram às nações e ideologias como a força condutora da política global.



Nesta obra mais que famosa somos introduzidos a um novo olhar debruçado sobre as relações internacionais, não só históricas mas também contemporâneas. Samuel P. Huntington é o responsável pela formalização de um novo tipo de tese através da qual expõe a matriz das relações internacionais e a origem das grandes dinâmicas criadas ao longo de séculos de conflito e coexistência. Neste novo cenário saído da queda do Muro de Berlim e da desintegração do Pacto de Varsóvia, as novas supra-unidades internacionais são as civilizações, e a Teoria das Relações Internacionais não é mais do que o esforço teórico que observa, analisa e estructura os modos de funcionamento entre estes actores. Embora a sua tese não seja original, uma vez que já existia uma prévio ensaio datado do ano de 1953 às mãos de Henri Schmittenner, obra com o título "Les Espaces Vitaux et les Conflitcts de Civilizations", como muito bem relembra o Professour Doutor António Marques Bessa na sua obra "O Olhar de Leviathan" (pág. 154), não deixa de relançar uma problemática para os campos da investigação científica social que ficou para a história como o último grande debate teórico do século XX.


Um dos primeiros grandes corolários defendidos logo nas primeiras páginas do referido livro, e que aliás tinha sido originado num primeiro artigo publicado na revista Foreign Affairs, à altura com o título "Clash of Civilizations?", demarcando uma acentuação interrogatória, é aquele que afirma a separação de toda a comunidade humana em diversas sub-comunidades distintas e particularizadas pelos mais diversos factores. As civilizações, de acordo com o próprio Huntington, é a comunidade mais elevada a que um ser humano pode identificar, com excepção à própria civilização humana. A cada civilização corresponderia obrigatoriamente um conjunto de vectores de congregação que possibilitariam o surgimento de um sentimento de pertença necessariamente sentimental a uma determinada comunidade de valores, interesses, e de pensamento. Como tal, cada civilização ultrapassa a simples divisória ideológica que tinha persistido ao longo de toda a Guerra Fria, e que permitia uma tolerância externa aos próprios valores da ideologia. Assim sendo, podíamos admitir a existência de uma congregação factual entre chineses, soviéticos e sul-americanos, embora à primeira vista nos fosse um conceito de difícil apreensão. Assim sendo, as civilizações são comunidades humanas que partiham muitas vezes uma origem histórica comum, constroem a sua realidade de formas semelhantes, adoptam valores com o mesmo significado e referente, possuem traços étnicos e culturais compatíveis se não mesmo coincidentes, etc. Embora seja possível existir alguma divergência em relação a estes factores, não deixa de sobressair a relevância de uma empatia tendencialmente cooperativa entre elementos de diversas comunidades que devido à natureza dos seus relacionamentos, características de divergência e convergência, e sentimentos de pertença constituem uma civilização. Como o disse Huntington, "A civilização é, assim, o mais elevado agrupamento cultural de pessoas e o nível mais amplo de identidade cultural que as pessoas possuem e que as distingue das outras espécies.





"Tomando as considerações supra mencionadas em linha de conta, há a necessidade de elaborar a devida correlação às actuais comunidades humanas e estabelecer um nexo entre as diferentes concepções de civilização e os povos a que estão adstritas. Para tal há que enumerar um total de 9 Civilizações que, aos olhos deste autor, melhor descrevem as comunidades humanas em quais a Humanidade encontra-se dividida. São elas, sem atender a qualquer tipo de ordem: Ocidental (a Vermelho), Latino-Americana (a Verde Escuro), Africana (a Azul), Islâmica (a Amarelo), Sínica (a Rosa), Hindu (a Verde-Alface), Ortodoxa (a Castanho), Budista (a Lilás) e Japonesa (a Beige). Como é possível depreender das suas designações, a cada qual corresponde um substracto cultural e filosófico muito específico e que ultrapassa em larga e na maioria dos casos as fronteiras de Estados soberanos. Logo, as civilizações são antes agrupamentos culturais e de identidade que se espalham ao longo de vastos territórios contíguos, e que se distinguem de outros agrupamentos de características distintas. Com efeito, torna-se premente a delimitação espacial de cada uma das civilizações mencionadas. Em primeiro lugar, a Civilização Ocidental compreende o que hoje entendemos por Ocidente, ou seja, todo o território da América do Norte excepto o México, a Europa Central, do Sul e do Norte, e no outro lado do globo os distantes países da Austrália, Nova Zelândia e ilhas adjacentes. Na conceptção de Huntington, este é de facto a civilização dominante nas relações internacionais, domínio esse que não provém de uma casualidade recente mas antes de uma construção que atende à lei da complexidade crescente analisada pelo Professor Doutor Adriano Moreira, e que como tal foi a responsável pela sedimentação das bases que atenderam à formação da ordem mundial de matriz europeia. Quanto às outras civilizações também é relativamente fácil fazer corresponder os territórios que as compõem, pelo que procederemos à sua identificação de maneira sumária. à Civilização Latino-Americana correspondem todos os territórios da América Central e do Sul mais o México; à Japonesa única e exclusivamente o Japão; à Budista grande parte do Sudeste Asiático, à região dos Himalaias (Tibete, Nepal, Butão), e actual Mongólia; à Hindu a Índia; a Civilização Sínica é representada pela China, Taiwan, Coreia do Sul e do Norte, Vietname do Sul e do Norte, assim como alguns territórios a Leste da actual fronteira da China com a Mongólia; enquanto que a Civilização Islâmica diz respeito às comunidades islâmicas que se situam em todo o Norte de África, Próximo e Médio Oriente, Corno de África, até aos territórios da Índia e da China a Oeste, e arquipélago da Indonésia, Malásia e Sul das Filipinas; a Africana a toda a região a Sul do Equador, incluíndo Madagáscar; e por último a Ortodoxa, como Rússia e países da Europa de Leste.



Após a feitura deste novo mapa-mundo atendendo às noções de civilização de Samuel P. Huntington, existe ainda uma outra problemática que dá conteúdo pragmático a toda a exposição elaborada na obra. Através de toda a argumentação defendida pelo autor, os próximos grandes conflitos não serão mais travados entre facções pertecentes a ideologias diferentes, nem a Estados que se degladiam entre si para adquirir mais território e recursos, mas antes nas linhas de contacto e fricção entre duas ou mais civilizações. Através de uma nova análise histórica, Huntington afirma que são nestas zonas que têm deflagrado os maiores conflitos bélicos da História da Humanidade, servindo prontamente um relatório mais ou menos pormenorizado de guerras relativamente recentes, como as Guerras Mundiais, o Conflito Israelo-Palestiniano, Conflito entre a China e o Tibete, Conflito de Caxemira, entre muitos outros. Atendendo a esta abordagem, tornam-se compreensíveis muitas das razões que subjazem ao despoletar de tais conflitos, assim como potenciais focos de tensão que susceptíveis de desencadear uma escalada armamentista e posterior conflito armado geral entre Estados inseridos nas respectivas civilizações.



domingo, 26 de abril de 2009

3ªS SÉRIES - EVOLUÇÃO DOS CHOQUES DE CIVILIZAÇÕES

3ª séries (para reflexões)


A cara das guerras
Confira como mudou a natureza dos conflitos nos últimos 500 anos, período em que se consolidou o domínio da civilização cristã e ocidental no mundo.


ENTRE MONARQUIAS
Quando, a partir de 1500, a cultura ocidental começa a se impor no mundo, os conflitos se dão, basicamente, entre príncipes, imperadores e monarcas que tentam expandir seu poder, seu comércio, suas fronteiras. Essa situação perdurará até a Revolução Francesa, em 1789.

ENTRE NAÇÕES
A partir da Revolução Francesa, consolida-se a idéia de Estado-nação e as guerras passam a adquirir caráter nacional, de expansão territorial de uma nação e seu povo. Essa característica se manterá até a Revolução Russa, em 1917.

ENTRE IDEOLOGIAS
Com a criação da União Soviética, surge uma superpotência comunista, que rivalizará com o mundo capitalista, liderado pelos EUA. A disputa ideológica passa a ser o fio condutor dos conflitos - uma situação que só mudará com a queda do Muro de Berlim, em 1989.

ENTRE CIVILIZAÇÕES
Com o fim da Guerra Fria e o triunfo do império americano, os conflitos perdem sua matriz ideológica e ganham tons cultural e religioso, de rivalidade entre Ocidente e Oriente, entre cristãos e islâmicos. Para alguns estudiosos, é a fase do
conflito entre civilizações.

3ªS SÉRIES - CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES

3ª séries (segundo bimestre)




Especial – REVISTA VEJA
Edição 1903 . 4 de maio de 2005


Choque de civilizações


Passados quase 1 000 anos de sua realização,as Cruzadas são um símbolo do confronto entreOcidente e Oriente. Novas pesquisas históricaslançam luz sobre o evento e desfazem mitos,enquanto uma superprodução cinematográfica,dirigida por Ridley Scott, recria a luta por Jerusalém no ano de 1187 Isabela Boscov, de Los Angeles






GUERREAR PARA TER PAZ


O inglês Orlando Bloom, como o cavaleiro Balian de Ibelin: o cristão lutou só o suficiente para levar o sultão Saladino até a mesa de negociações

"Não foi por Deus que viemos aqui. Foi pela terra e pela fortuna", diz um cavaleiro, com amargura, numa cena do filme Cruzada. A frase não resume apenas muito do sentimento ocidental e também muçulmano para com as Cruzadas medievais. Basta trocar "Deus" por "democracia" e "terra" por "petróleo" para que ela passe a funcionar como uma síntese da visão popular, a Leste e a Oeste, do atual conflito no Iraque e das tensões entre o mundo ocidental e o islâmico. O cineasta inglês Ridley Scott, de Gladiador, sabe que esse processo de substituição do passado pelo presente será inevitável a partir da próxima sexta-feira, quando seu Cruzada estréia em circuito mundial. Scott, porém, espera que ele se torne não motivo de discórdia, mas que ajude a promover algum entendimento (além, é claro, de recuperar o investimento de 130 milhões de dólares do estúdio Fox).


A Cruzada se passa em 1187, quando o sultão Saladino, à frente de 200.000 soldados, cercou Jerusalém – então a sede do Reino Latino do Oriente – e retomou-a dos cruzados, que estavam estabelecidos ali havia quase nove décadas. Muito sangue foi derramado nessa operação – e muito mais sangue ainda deixou de ser derramado graças à inteligência e à diplomacia com que Saladino e o cristão Balian de Ibelin, que liderou a resistência de Jerusalém (e, no filme, é interpretado pelo astro em ascensão Orlando Bloom), negociaram essa transferência de poder. Para historiadores como Carole Hillenbrand, da Universidade de Edimburgo, uma das maiores estudiosas do lado muçulmano das Cruzadas, o ano de 1187 é o símbolo de uma grande oportunidade perdida: uma trégua que, por muito pouco, não se tornou permanente, mudando assim o curso da história no Oriente Médio. É dessa maneira também que o filme mostra esse momento – como uma utopia, infelizmente fugidia, de convivência entre civilizações.





"DEUS O QUER"


Cavaleiros partem em combate contra o sultão Saladino: um conflito que poderia ter terminado de vez e de fato em 1187


Durante as Cruzadas, as tréguas foram em geral poucas e curtas – como essa mostrada no filme, entre a segunda e a terceira expedições –, porque novos cavaleiros estavam sempre chegando do Ocidente e renovando a animosidade contra os muçulmanos, a despeito de sua inferioridade numérica e militar. Não há censo confiável, mas calcula-se em 1 milhão as baixas entre os cristãos e o mesmo tanto entre os muçulmanos. No fim do século XIII, quando o ciclo se encerrou, o vitorioso foi o Islã, que conseguiu expulsar todos os cruzados de seus domínios. Hoje, quase 1.000 anos depois, a sensação que ocidentais e muçulmanos têm – e que um e outro lado alimentam e propagam ao sabor das conveniências – é a de que o Islã foi o grande perdedor do movimento deflagrado pelos papas católicos. A trajetória simbólica das Cruzadas é diversa no Ocidente e no Oriente, mas em ambos tem uma relação igualmente conflituosa com a realidade dos fatos ocorridos na Idade Média. Há muito que aprender, entretanto, ao observar-se o percurso dessas transformações: elas formam uma crônica fascinante de como idéias, palavras e percepções pesam tanto no destino das civilizações quanto suas riquezas, sua estrutura social e seus regimes políticos.


O termo "cruzada" é, hoje, corrente nos idiomas ocidentais. Dizemos que os americanos estão envolvidos numa cruzada contra o tabagismo, ou que as polícias empreendem uma cruzada contra elementos corruptos em seu interior. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, porém, ele consolidou seu caráter de palavrão ideológico. É empregado com absoluta falta de sensibilidade – como quando o presidente George W. Bush declarou "uma cruzada contra o terrorismo", tingindo uma luta legítima com tonalidades antiislâmicas – ou com total deliberação, como a cada vez que Osama bin Laden anuncia em seus vídeos que o sangue dos cruzados cobrirá novamente a espada de Saladino. O curioso, porém, é que o termo deve sua força mais às empreitadas coloniais e imperialistas dos séculos XIX e XX do que aos eventos da Idade Média. Até as potências européias começarem a ocupar o Oriente, em meados do século XIX, essas emoções estavam, de certa forma, dormentes – e a língua árabe não registrava sequer um termo específico para "cruzada" ou "cruzados", valendo-se do genérico "francos" (foi da França que partiu a maior parte das expedições medievais). Hoje, usam-se duas frases: "guerras cruzadas" e "ataques cruzados". Quase sempre, em contextos em que se fala de intrusões ocidentais, tanto militares quanto culturais ou políticas.


O enorme poder simbólico das Cruzadas para os árabes do presente foi insuflado com a ajuda decisiva dos próprios colonialistas, que adoravam usar imagens do período medieval para caracterizar suas conquistas. Ao entrar em Jerusalém pela primeira vez em sete séculos com um exército cristão, em 1917, o general inglês Edmund Allenby teria declarado que "agora, sim, as Cruzadas terminaram". A revista inglesa Punch, então popularíssima, não perdeu tempo em retratá-lo como Ricardo Coração-de-Leão, o maior herói cristão das Cruzadas, numa caricatura célebre – e também das mais ofensivas aos sentimentos árabes. Para Carole Hillenbrand, não é de estranhar, portanto, que os palestinos dos dias de hoje, em guerra pelo território em que cristãos e muçulmanos se enfrentaram há quase 1.000 anos, se vejam como parte desse mesmo conflito.


Um dos efeitos mais claros das Cruzadas foi o de levar o Islã a fechar-se em si mesmo. Daí, nos séculos XIX e XX, ele ter se ressentido duramente por ser invadido não apenas por colonialistas e imperialistas, mas também por uma retórica medieval que invocava vingança e retribuição. É essa retórica que, forçada pela garganta do mundo árabe, foi digerida por ele, transformada, globalizada e, desde os anos 70, ajuda a alimentar ódios e tensões. Episódios como o do banho de sangue que foi a primeira tomada de Jerusalém, em 1099, quando os cristãos massacraram os muçulmanos, são relembrados não como uma cena em que os atores principais estão mortos. São rememorados como o primeiro ato de uma guerra que não acabou, nem nunca deixou de existir.
Por muito tempo, porém, o Ocidente praticamente não existiu nos pensamentos dos muçulmanos – e não havia mesmo razão para que os orientais se ocupassem dele.


Desde o século VII, o Islã vinha alargando suas fronteiras a passos rápidos. Às vezes pelo fio da espada, mas mais comumente pela simples adesão à fé do profeta Maomé. Os muçulmanos estavam estabelecidos no sul da Espanha e na Sicília, de onde os cristãos já começavam a desalojá-los. A leste, haviam englobado uma porção do que antes fora a Cristandade – inclusive Jerusalém, ocupada em 638. Mas as linhas fronteiriças com o mundo cristão eram estáveis. Não havia nelas, no geral, um estado de guerra. Boa parte do crédito cabe ao Islã, que praticava a tolerância religiosa e mantinha Jerusalém aberta "às três fés de Abraão" – o islamismo, o cristianismo e o judaísmo. No século XI, porém, a balança pendeu de vez para o lado do conflito armado. Tribos nômades de turcos seljuk – que, na verdade, estavam mais interessadas em conquistar território para seus rebanhos do que em fazer a jihad, ou guerra santa – abocanharam toda a Ásia Menor (a moderna Turquia), que fora cristã desde o tempo de São Paulo, reduzindo o Império Bizantino quase que só à Grécia e à Constantinopla (hoje Istambul).

O imperador de Bizâncio pediu socorro, e foi ouvido por uma Europa que atravessava um momento peculiar: uma Europa em crescimento populacional e econômico, repleta de energia, mas também aterrorizada pela idéia do fim do mundo, a qual fez redobrar o valor da penitência e da purificação.


Quando, em 1095, o papa Urbano II atendeu ao apelo do imperador com um chamado para as Cruzadas, as metas que ele estabeleceu pareciam razoáveis: recuperar os locais sagrados do cristianismo e garantir a passagem de peregrinos para a Terra Santa. Quem tomava a cruz para socorrer assim seus irmãos ganhava em troca a salvação. "As Cruzadas eram travadas por voluntários. E seria muito difícil persuadir centenas de milhares de homens a embarcar numa empreitada que eles vissem como imoral", disse a VEJA Jonathan Riley-Smith, titular da Universidade de Cambridge e o estudioso do tema atualmente mais citado em todo o mundo. Está aí, porém, um dos nós que dividem os estudiosos: até que ponto a Igreja manipulou essa ferramenta tão útil que acabara de inventar, exagerando o perigo que a fé cristã corria, para fazer uma ofensiva contra os muçulmanos. Enquanto alguns historiadores enxergam a expansão do Islã como uma agressão inequívoca contra a Cristandade, outros argumentam que não pode ter sido coincidência a Igreja escolher o fim do século XI para seu ataque: nesse momento o Islã estava particularmente fragmentado, e portanto especialmente vulnerável. "Quando os cruzados começaram a chegar à Síria, à Palestina e ao Egito, os habitantes dessas regiões não tinham a menor idéia do que estava acontecendo. Sua única certeza era que não haviam feito nada que pudesse ser entendido como provocação", defende Carole Hillenbrand.


A imaginação de escritores românticos como Sir Walter Scott (1771-1832), autor de clássicos populares como O Talismã e Ivanhoé, também fez muito por cimentar a imagem de uma civilização superior submetida ao assédio de invasores bárbaros. O inglês Jonathan Riley-Smith lembra que nenhum lado era melhor do que o outro. Os cristãos cometeram atrocidades, mas não faltam exemplos de muçulmanos devolvendo-as na mesma moeda – como o fez o sultão as-Salih numa nova e sangrenta retomada de Jerusalém, em 1244. Riley-Smith defende que romances como os de Walter Scott não se entranharam apenas no inconsciente ocidental: eles contaminaram a própria Academia. O exemplo mais claro – e tremendamente influente – é o do também inglês Steven Runciman, cujos livros, publicados pela primeira vez na década de 50, permanecem como os trabalhos históricos recordistas em vendas na Inglaterra. É de Runciman, em boa parte, que se herdou a imagem do cruzado como um matuto ignorante, sem terra, fortuna ou algo útil com que ocupar seu tempo, que partia para a Terra Santa atrás de aventura, butim e brutalidade livre de punição.


De mais ou menos duas décadas para cá, entretanto, o estudo das Cruzadas trouxe à tona dados novos, que derrubam esses estereótipos. O levantamento demográfico e econômico dos cavaleiros que assumiam a cruz demonstra que a imensa maioria era de senhores com terra e com fortuna, que não raro se arruinavam para marchar rumo a Jerusalém. A maioria voltava de mãos vazias, e freqüentemente encontrava suas posses européias em desordem devido à ausência prolongada e às grandes quantias sacrificadas para a expedição. Claro que havia entre eles arruaceiros, como atestam os relatos de cavaleiros que se gabavam de ter cavalgado com sangue muçulmano até os joelhos. Alguns dos bandos de cruzados aproveitavam para pilhar e destruir tudo o que houvesse pelo caminho. É célebre, por exemplo, o caso de um grupo saído do que hoje é a Alemanha, ainda na Primeira Cruzada (1095-1099), que trucidou centenas de judeus às margens do Rio Reno. Também houve casos de cavaleiros que fizeram fortuna no Oriente. Mas foram poucos.


Pouca fortuna a ser amealhada, e pouca gente com vontade ou meios de se radicar nos territórios do Oriente. Esses dois dados, sozinhos, bastam para tirar a credibilidade da visão, propagada nos anos 60 e 70, de que as Cruzadas foram um empreendimento protocolonialista. Houve, de fato, um pequeno movimento colonial rumo ao Reino Latino de Jerusalém, de pessoas que aproveitaram a trilha aberta pelos cruzados. À época de sua expulsão, em 1291, essa gente estava quase toda imersa na cultura local e prestes a se tornar parte dela – incluídos aí desde agricultores até a família real de Jerusalém. Nada, portanto, parecido com o colonialismo do século XIX, em que a exportação de valores culturais e ideológicos era parte do mesmo esforço da anexação territorial.


Do ponto de vista militar, uma cruzada era uma aventura curiosa, sem cadeia de comando definida ou alvos estratégicos claros. Esse improviso não causava grande impressão entre os muçulmanos. Talvez por isso o Islã nunca tenha enxergado nas Cruzadas o equivalente cristão da jihad. Tudo o que eles viam eram bandos desordenados de invasores, falando de uma religião que não lhes apetecia. Se uma coisa não mudou nos séculos desde então é que o Islã, para seus seguidores, é a Revelação perfeita e definitiva. Os muçulmanos achavam que havia coisas a aprender com civilizações como a chinesa ou a indiana, mas certamente não com a européia. A Europa, aos olhos deles, era uma terra envolta em bruma, no sentido literal e metafórico. Para os muçulmanos que não foram diretamente atingidos pelas Cruzadas, então, elas permaneceram como uma perturbação menor nas bordas de seu império. Pelo menos até que os mongóis chegassem com seu apetite incomparável para a conquista: um invasor foi somado ao outro na imaginação árabe do período, e todos foram rejeitados como intrusos violentos e indesejáveis.


Muitas indagações e hipóteses já foram formuladas na tentativa de explicar por que, afinal, Leste e Oeste não se entendem. Geralmente, porém, quando se faz a pergunta errada tem-se uma resposta incorreta. Exemplo: em 1993, o americano Samuel Huntington, especialista em estudos internacionais na Universidade Harvard, escreveu um texto de imenso impacto – e muito polêmico –, no qual argumentava que muitos dos conflitos entre nações são, na verdade, um "choque de civilizações". A tese de Huntington, em resumo, é que o Leste e o Oeste vivem sob sistemas de valores totalmente diversos, e que esses valores são o produto de séculos – muito mais significativos, portanto, do que visões divergentes acerca de ideologias ou regimes políticos. À primeira (e rápida) vista, o pensamento do americano parece sagaz. Mas, numa inspeção mais profunda, ele ressurge como mais uma expressão daquilo que o intelectual palestino Edward Said descreveu em 1978, num livro-marco de mesmo nome, como "orientalismo": a distinção imaginária entre Ocidente e Oriente, em termos geográficos, culturais, morais e intelectuais.


O orientalismo leva à crença de que o mundo é dividido entre "nós" e "eles", e que "eles" são essencialmente diferentes – e, por extensão, inferiores, passíveis de dominação e iluminação por "nós". Mas o cristianismo, o islamismo e o judaísmo são hoje religiões globalizadas, cujos seguidores se mostram capazes de conviver de forma pacífica e proveitosa em vários pontos do planeta. Na verdade, acrescenta a historiadora Carole Hillenbrand, nem na Europa do século XI essa distinção faria sentido. Entre o século VIII e o XV, os mouros criaram na Península Ibérica um exemplo não livre de tensão, mas ainda assim florescente, daquilo que o contato entre as civilizações pode produzir: o reino de al-Andalus, que legou para o presente bem mais do que as maravilhas arquitetônicas de Granada, Sevilha e Córdoba, o sabor do gaspacho ou a música e a dança flamencas. Foi por meio da convivência entre muçulmanos, cristãos e judeus em al-Andalus, também, que fincaram pé no continente tradições das quais ninguém sonharia abrir mão, como a diplomacia, a tolerância religiosa, o livre-comércio e a pesquisa acadêmica e científica. Se o mundo medieval foi capaz de 800 anos de relativa harmonia, não há desculpa para que o mundo moderno não se empenhe em restabelecê-la.





O HERÓI DE TODOS


As Cruzadas produziram inúmeras discórdias, mas também uma unanimidade: o sultão Saladino (1138-1193), que, ao tomar Jerusalém, em 1187, concordou em deixar sair da cidade todos os cristãos que pagassem um pequeno resgate. Não só cumpriu a promessa, como dispensou centenas de indultos a pobres, idosos, mulheres e escravos. A admiração ocidental por Saladino (na foto, interpretado por Ghassan Massoud) se converteu em quase-adoração quando, na Terceira Cruzada, ele encontrou em Ricardo I um oponente à altura de seu carisma e cavalheirismo (mas não de sua força militar). Nascido em Tikrit, atual Iraque, o sultão não particularmente devoto tornou-se herói no Oriente por ter unificado as forças muçulmanas. No Ocidente, virou o símbolo da sofisticação do Islã, posto do qual governaria a imaginação européia pelos séculos seguintes.